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Psicólogos apontam trabalho atual como fator de adoecimento

Psicólogos apontam trabalho atual como fator de adoecimento

11 de Julho de 2016
Importante sob os pontos de vista social, econômico e psicológico, o trabalho tem sido um desencadeador de sofrimento e tem levado as pessoas ao adoecimento. A afirmação foi feita pelos integrantes da mesa redonda “Saúde do trabalhador e sofrimento no trabalho”, realizada na manhã desta sexta-feira (08) dentro do 3º Congresso de Psicologia do Cerrado (Conpcer).  
 
Na realidade, o contexto social atual, como um todo, é produtor de sofrimento, explica o mestre e professor Maelison Silva Neves, da UFMT. Segundo ele, vários autores de diversas áreas da saúde mental apontam que o modo de vida que temos, o tipo de organização social, o modo de produção capitalista é incompatível com uma vida saudável. “Está na própria raiz da nossa organização social um sistema que nos empurra para o adoecimento”, frisa. 
 
Para ele, eventos como o Conpcer são importantes porque colocam esses problemas em discussão. “A saúde plena envolve transformações na sociedade em que vivemos atualmente. Principalmente no mundo do trabalho. Discutir saúde do trabalhador é discutir também a sociedade em que esse trabalhador vive, porque ele precisa trabalhar dessa forma”, diz.
 
Neves cita pesquisadores como a mexicana Asa Cristina Laurell, que discute exatamente quanto o processo de adoecimento está diretamente relacionado com a posição e classe que o sujeito ocupa. “O transtorno mental é mais comum entre trabalhadores cujas condições de vida e de trabalho são mais desgastantes. Há uma relação muito forte entre a posição e classe, a condição socioeconômica, o acesso a uma determinada forma de vida e a produção de adoecimento”, alerta.
 
Doutor e professor da UFMT, Luís Henrique da Costa Leão, aponta uma subversão de função. “O trabalho é algo central na vida humana, numa sociedade, para produção de riquezas, de bens materiais e bens simbólicos. Mas o trabalho também produz identidade, papéis sociais, vida e produz satisfação, saúde”, diz. Pelo menos deveria. “Por outro lado, os processos de trabalho são causadores de gravíssimos problemas na sociedade brasileira e nós estamos vivendo uma era em que está cada vez mais precarizado. A pressão é cada vez maior. Os quadros político, social e econômico fazem pressão sobre as empresas. Elas, por sua vez, acabam aderindo a processos que são muito danosos”, alerta.
 
Sob essa perspectiva, o campo de estudo da saúde do trabalhador tenta, então, compreender o mundo do trabalho contemporâneo e intervir, salienta Leão. “Porque a perspectiva não é demonstrar esse cenário tenebroso, mas é transformar a partir da consciência de cada trabalhador. Propor formas de alternar esses processos produtivos para que eles sejam capazes realmente de produzir mais satisfação do que adoecimento. Essa é a lógica”. 
 
O palestrante ressalta também a importância de atentar para uma lógica manicomial. “O trabalho hoje tem sido um dos principais fatores de divisão de quem é são e de quem é doente, sobretudo mentalmente”, lamenta. Aquele que manifesta qualquer tipo de sofrimento no trabalho tende a ser excluído do âmbito da produção. “É como se a sociedade contemporânea tolerasse o adoecimento, mas ela não tolera o trabalhador que manifesta seu sofrimento. Porque ao manifestar seu sofrimento ele aponta para uma ordem de organização do trabalho injusta, que traz muita pressão além do que o corpo e a mente podem suportar, aponta para relações perversas, para salários que não são condizentes com seu esforço”. Para ele, o campo da saúde do trabalhador deve partir do pressuposto de que o trabalho é organizador da vida psíquica, da vida social e também da economia.
 
Fonte: Pau e Prosa Comunicação.